A brasileira Sandra Corveloni foi eleita a melhor atriz do Festival de Cannes, por sua interpretação da mãe de quatro filhos, grávida do quinto, em Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas. “O prêmio vai para uma atriz que estréia no cinema, num filme de experiência muito coletiva e inesquecível. É uma grande surpresa para nós”, disse Walter Salles na cerimônia de premiação. Daniela Thomas afirmou que Sandra ficaria muito feliz, “ainda mais pelo prêmio vir deste júri”. E emendou, em português: “Querida, você não esteve aqui, mas seu espírito esteve, e sua personalidade incrível, que nos trouxe nessa viagem de fazer este filme”. A atriz não veio a Cannes porque recentemente perdeu o bebê que esperava.
O porto-riquenho Benicio del Toro foi escolhido o melhor ator, por seu trabalho em Che, de Steven Soderbergh. “Quero dedicar esse prêmio ao homem, Che Guevara”, afirmou. Assim, foram dois prêmios de atuação para latino-americanos.
A entrada no Grand Théâtre Lumière dava idéia de que seriam muitos os prêmios, porque vários dos diretores estiveram presentes. De fato, houve os tradicionais prêmios de roteiro (para Jean-Pierre e Luc Dardenne, por Le Silence de Lorna), o prêmio do júri (para Il Divo, de Paolo Sorrentino), o Grande Prêmio (para Gomorra, de Matteo Garrone) e diretor (para Nuri Bilge Ceylan, por Les Trois Singes). Além desses, o júri resolveu dar prêmios especiais por seus novos trabalhos e por toda a obra, para Catherine Deneuve, que está no elenco de Conte de Noël, de Arnaud Desplechin, e Clint Eastwood, que mostrou aqui The Exchange.
A Palma de Ouro acabou nas mãos de Laurent Cantet, por Entre Les Murs, exibido no último dia do festival. A última vez que um francês tinha levado a Palma de Ouro havia sido em 1987 (Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat). Cantet usa o professor e alunos de verdade de um colégio francês para falar de educação e diferenças culturais e religiosas.
O presidente do júri, Sean Penn, declarou que a Palma de Ouro foi uma decisão unânime. “Nós começamos a analisar a arte do filme: mágica. Todas as atuações: mágicas. O roteiro: mágico. A provocação, a generosidade. Esse filme tinha simplesmente tudo o que você quer de um filme”, disse Penn na coletiva do júri. “É um dos raros filmes que são cinema de alta qualidade que você pode compartilhar com os jovens. Porque são eles que vão ter de encontrar a solução para esses problemas”, completou o mexicano Alfonso Cuarón. “Gostaria de mandar esse filme para o Ministério da Educação do meu país”, declarou o cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul.
Entre les Murs foi o único filme a receber apenas críticas positivas e a gerar uma boataria consistente de Palma de Ouro, apesar de ter sido exibido na última hora, quando parte da imprensa já tinha ido embora.
Surpreenderam os dois prêmios para os dois italianos na competição. Il Divo, de Paolo Sorrentino, e Gomorra, de Matteo Garrone, são como duas faces da mesma moeda. O primeiro fala do primeiro-ministro Giulio Andreotti e suas relações escusas, inclusive com a máfia. O segundo trata dos meninos recrutados pela máfia. “Gostei do poder arrebatador e da autenticidade de Gomorra“, disse Sean Penn. “É um filme que vai durar”, completou. “E em Il Divo fiquei feliz de ver ferramentas de linguagem para um cinema dinâmico, mas consciente de como funciona o mundo e os governos, mas com humor e energia pop.”
Outros premiados:
Curta-metragem: Megatron, de Marian Crisan
Prêmio do Júri de Curta-Metragem: Jerrycan, de Julius Avery
Caméra d’Or: Hunger, de Steve McQueen
Menção Especial da Caméra d’Or: Vse Umrut a Ja Ostanus, Valeria Gaï Guermanika