Fernando Meirelles fala meio brincando, mas não sem razão: Ensaio sobre a Cegueira não é o filme mais óbvio para abrir um festival como o de Cannes. Seu longa-metragem é incômodo, quase indigesto, para ser consumido numa noite festiva como esta.
Baseado no romance de José Saramago, o filme trata de uma epidemia de cegueira que acomete os moradores de uma cidade não-identificada: em muitos trechos, quem é de São Paulo vai reconhecê-la. Primeiro, é um motorista ao volante que mergulha numa brancura, como se afundasse no leite. Depois, uma garota que freqüenta o mesmo consultório, depois o médico que cuida de ambos (Mark Ruffalo). A mulher do doutor finge-se de cega para poder acompanhar o marido ao hospital onde eles todos são abandonados pelo governo. Eles precisam, então, se organizar para a comida e a limpeza. Mas ela, como é a única a enxergar, pouco a pouco se vê na condição de líder - mais ainda quando um outro líder surge no quarto ao lado (Gael García Bernal).
A tela também mergulha no branco para dar a mesma sensação dos personagens ao público, em imagens pouco saturadas (a fotografia é do mesmo Cesar Charlone de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel). O resultado visual impressiona.
A cegueira que acomete esses personagens, afinal, não difere da cegueira que vivemos no dia-a-dia: quantas pessoas se tornaram invisíveis para nós? Ou quantos povos? Mas o filme também tem dimensões psicológicas: quais os limites da dignidade? O que você faria numa situação dessas: guiaria-se pela ética ou pelo salve-se quem puder?
Mas a verdade é que, apesar de visualmente instigante e de levantar temas que fazem pensar, Ensaio sobre a Cegueira não pulsa como deveria. Há cenas fortes, tratadas elegantemente, como a do estupro. Julianne Moore, como a única a enxergar, oferece daquelas suas atuações sob medida, sempre boas. Mas, ainda assim, falta-lhe um pouco daquele vigor que Cidade de Deus e até O Jardineiro Fiel tinham.
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