Arquivo para Maio 14th, 2008

14
Mai
08

Sem competição

Sean Penn, presidente do júri, disse que “não vai haver competição, mas celebração”, na escolha da Palma de Ouro. “Vamos ver os filmes com mentes e corações limpos.”

O ator falou durante a coletiva do júri, formado ainda pelas atrizes Natalie Portman, Jeanne Balibar e Alexandra Maria Lara, o ator e diretor Sergio Castellitto e os diretores Alfonso Cuarón, Marjane Satrapi, Rachid Bouchareb e Apichatpong Weerasethakul. 

Tanto Penn quanto Natalie Portman, que têm a fama de serem politizados, não quiseram dizer se apóiam Hilary Clinton ou Barack Obama. Mas declararam seu amor pelo cinema. 

14
Mai
08

A primeira entrevista

Foi num inglês impecável que os brasileiros Fernando Meirelles e Alice Braga falaram durante a entrevista coletiva de Ensaio sobre a Cegueira, a primeira do Festival de Cannes.

“Não tinha idéia de como faria, o filme foi aparecendo no processo”, disse Fernando, que admitiu ter estado “cego” como os personagens durante boa parte da produção. “Nós nos consideramos tão fortes, tão civilizados, mas tudo pode ser destruído muito rapidamente”, afirmou. É o caso dos personagens do filme, que se vêem acometidos por uma epidemia de cegueira e precisam se reorganizar como sociedade.

Alice Braga disse que amou o livro de José Saramago e adorou voltar a trabalhar com Fernando – que a revelou em Cidade de Deus.

O mexicano Gael García Bernal contou ter ficado muito surpreso quando foi convidado – ele faz um tipo bem mau caráter, que tenta sobreviver à custa dos outros. “Você era o cara errado para o papel”, brincou Fernando. Julianne Moore, que interpreta a mulher do médico (Mark Ruffalo, que não foi a Cannes), disse que tentou usar um registro mais naturalista em suas atuações:”Sempre admirei isso nos filmes do Fernando”. Ao responder se conhecia algum outro diretor brasileiro, ela disse que conhecia Walter Salles. Fernando gritou, brincando: “Mas esta semana, ele é o inimigo!”. Linha de Passe, afinal, também está na competição.

14
Mai
08

Ensaio sobre a Cegueira

Fernando Meirelles fala meio brincando, mas não sem razão: Ensaio sobre a Cegueira não é o filme mais óbvio para abrir um festival como o de Cannes. Seu longa-metragem é incômodo, quase indigesto, para ser consumido numa noite festiva como esta.

Baseado no romance de José Saramago, o filme trata de uma epidemia de cegueira que acomete os moradores de uma cidade não-identificada: em muitos trechos, quem é de São Paulo vai reconhecê-la. Primeiro, é um motorista ao volante que mergulha numa brancura, como se afundasse no leite. Depois, uma garota que freqüenta o mesmo consultório, depois o médico que cuida de ambos (Mark Ruffalo). A mulher do doutor finge-se de cega para poder acompanhar o marido ao hospital onde eles todos são abandonados pelo governo. Eles precisam, então, se organizar para a comida e a limpeza. Mas ela, como é a única a enxergar, pouco a pouco se vê na condição de líder – mais ainda quando um outro líder surge no quarto ao lado (Gael García Bernal).

A tela também mergulha no branco para dar a mesma sensação dos personagens ao público, em imagens pouco saturadas (a fotografia é do mesmo Cesar Charlone de Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel). O resultado visual impressiona.

A cegueira que acomete esses personagens, afinal, não difere da cegueira que vivemos no dia-a-dia: quantas pessoas se tornaram invisíveis para nós? Ou quantos povos? Mas o filme também tem dimensões psicológicas: quais os limites da dignidade? O que você faria numa situação dessas: guiaria-se pela ética ou pelo salve-se quem puder?

Mas a verdade é que, apesar de visualmente instigante e de levantar temas que fazem pensar, Ensaio sobre a Cegueira não pulsa como deveria. Há cenas fortes, tratadas elegantemente, como a do estupro. Julianne Moore, como a única a enxergar, oferece daquelas suas atuações sob medida, sempre boas. Mas, ainda assim, falta-lhe um pouco daquele vigor que Cidade de Deus e até O Jardineiro Fiel tinham.

14
Mai
08

Filas e mais filas

Olá! A partir de agora, trago os filmes, personalidades e o clima do Festival de Cannes. Venha comigo!

O primeiro dia em Cannes significa principalmente o primeiro dia de uma longa lista de filas. É gente que não acaba mais. Um amigo deu uma definição perfeita: sabe Réveillon em Copacabana? É assim todo dia. Para os jornalistas, o estresse começa antes de pegar a credencial: qual será a cor da minha? A branca é a mais desejada. Dá acesso a tudo, inclusive à sessão de gala, com prioridade. Depois vêm a rosa com bolinha amarela (não é brincadeira), a rosa, a amarela, a cinza e a laranja. Na entrada de tudo, há uma segregação colorida: com base nas cores da credencial.

A fila para a primeira sessão do festival começou pequenininha – e eu estava lá às 8h30 da manhã para garantir meu lugar na sala Debussy, que exibiria Ensaio sobre a Cegueira (ou Blindness, o título internacional). O filme de Fernando Meirelles abre o festival (uma honra) e também a competição (feito raro). Pois logo logo a fila já ultrapassava muito as cercas de ferro que a organizavam, alcançando a rua. Rosas para o lado direito, brancos e rosa com bolinhas no meio, azuis do lado esquerdo. Laranjas, amarelos e cinzas lááááá atrás. O controle é rígido, com leitura de código de barras e revista das bolsas.

Sentei no balcão lá em cima, apesar de ter chegado cedo! Mas tudo bem, a sala é ótima, a projeção, idem.

No próximo post, conto sobre o filme!

14
Mai
08

SET na Riviera!

Um amigo, também jornalista, todo ano cobre o Festival de Cannes – e todo ano ele precisa de férias logo em seguida. O mais importante festival de cinema do mundo é, para quem trabalha nele, uma maratona de filmes, entrevistas, mais filmes, festas, lançamentos e, claro, mais filmes intensa e sem pausa. Enquanto escrevo estas linhas no conforto da redação, a jornalista Mariane Morisawa, colaboradora de SET, recupera-se das longas horas de vôo e, depois de fazer reconhecimento de terreno, vai alimentar esta e outras páginas de nosso exclusivo Blog de Cannes com todas as novidades direto da Riviera, em uma edição fortemente latina do Festival – Walter Salles (com Linha de Passe) e Fernando Meirelles (com Blindness), entre outros, seguram a bandeira brasileira. Mariane está de olho em tudo – como vocês vão conferir por aqui nos próximos dias. Boa leitura!




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